Os corpora MPB

Neste capítulo são apresentados, descritos e discutidos os corpora de obras que formam a essência material do projeto MPB.

1 Estudo de corpus

Os chamados estudos de corpus vêm se tornando, especialmente nos últimos anos, uma das mais fortes tendências nas abordagens musicológicas sistemáticas. Impulsionados pelos crescentes avanços na tecnologia computacional e na formação de enormes bancos de dados sobre música (especialmente em partituras, arquivos de áudio e arquivos MIDI), tais estudos abrangem uma vasta gama de repertórios, sendo geralmente aliados a hipóteses de trabalho, modelos teóricos e metodologias especificamente elaborados para as análises e um sólido suporte estatístico.1 Estudos de corpus em música popular também vêm surgindo em relativa profusão nos últimos anos.2

O Projeto MPB se enquadra nas linhas gerais dessa tendência, porém, um tanto inusitadamente, tem como objeto de estudo não apenas um corpus, mas um amplo conjunto deles, subdividido em dois grandes grupos: (1) o principal – o centro da atenção analítica – abrangendo corpora de compositores individuais de idênticas extensões (50 peças cada), e (2) o secundário – o grupo de controle –, formado por três corpora de gêneros, cada qual igualmente com 50 peças. Além disso, o projeto considera, além da harmonia (em várias perspectivas), elementos da estrutura melódica: alturas, ritmos e relações entre notas e acordes.

2 Informações básicas sobre os corpora

2.1 Grupo de controle

A principal distinção entre o grupo de controle (formado pelo trio Jazz-Choro-Samba) e o principal (ou seja, dos corpora MPB) reside no fato de que seus repertórios não terem sido selecionados a partir de obras de compositores específicos, mas sim considerando os respectivos gêneros.3 As fontes adotadas para as transcrições foram as seguintes:

  • Jazz – Todas as 50 peças foram transcritas de composições contidas no volume (muito conhecido pelos músicos) intitulado Real book.4
  • Choro – A fonte adotada para a transcrição dos choros foi o livro de partituras O melhor de Pixinguinha, publicado pela editora Irmãos Vitale.
  • Samba – Ao contrário dos outros repertórios, os 50 sambas selecionados foram transcritos a partir de suas gravações principais, trabalho realizado por Pedro Zisels.

2.2 Repertórios MPB

Nesta primeira fase do projeto, decidimos selecionar 10 compositores para integrar o grupo principal e, desse modo, dar início ao processo analítico. Trata-se de uma espécie de “Seleção Canarinho” da MPB, dentro de nosso entendimento particular, é claro, mas, provavelmente, a maior parte desse escrete coincidirá com alternativas que possam ser propostas (como toda seleção já escalada, cada brasileiro tem o ideal de seu próprio time).

Os 10 compositores selecionados para a formação dos corpora que integram grupo principal na fase 1 são os seguintes (dispostos na ordem de análise):

  • Antonio Carlos (Tom) Jobim (1927–1994)
  • Ivan Lins (1945)
  • Chico Buarque de Hollanda (1944)
  • Edu Lobo (1943)
  • Caetano Veloso (1942)
  • Djavan (1949)
  • Milton Nascimento (1942)
  • João Bosco (1946)
  • Gilberto Gil (1942)
  • Rita Lee (1947–2023)

Em relação à escolha das obras para integrarem os 10 corpora MPB consideramos songbooks de partituras à disposição no mercado editorial brasileiro. Vale acrescentar que, a despeito das origens das partituras, todas são cuidadosamente revisadas antes de suas transcrições, fase na qual erros eventuais são corrigidos. As fontes adotadas são as seguintes:

  • Tom Jobim – Cancioneiro Jobim, em cinco volumes, publicado pelo Instituto Antonio Carlos Jobim.5
  • Ivan Lins – Songbook Ivan Lins, em dois volumes publicado pela editora Lumiar.
  • Chico Buarque – Cancioneiro Chico, em dois volumes, publicado pelo Instituto Antonio Carlos Jobim.
  • Edu Lobo – Songbook Edu, publicado pela editora Lumiar.
  • Caetano Veloso – Songbook Caetano Veloso, em dois volumes publicado pela editora Lumiar.
  • Djavan – Songbook Djavan, em três volumes, publicado pela editora Lumiar.
  • João Bosco – Songbook João Bosco, em dois volumes, publicado pela editora Lumiar.
  • Milton Nascimento – Songbook Milton Nascimento, publicado pela editora Neutral.6
  • Gilberto Gil – Songbook Gilberto Gil, em dois volumes, publicado pela editora Lumiar.
  • Rita Lee – Songbook Rita Lee, em dois volumes publicado pela editora Lumiar.

Após a conclusão desta primeira, uma segunda fase incluirá mais 10 compositores, e assim por diante, tornando cada vez mais sólido e abrangente o projeto. Como uma ilustração do potencial de expansão do projeto, nesse sentido, a Figura 1 apresenta as linhas de vida dos 10 compositores selecionados para a fase 1 (em destaque) e outras sugestões de nomes (entre vários outros possíveis) para futuras fases.

Figura 1: Linha do tempo abarcando 100 anos (1920–2020) sobre a qual se projetam os períodos de vida de 20 conhecidos compositores. A área em cinza informa aproximadamente o período da Prática Comum da MPB. Barras ativas correspondem aos 10 compositores selecionados para a primeira fase do projeto.

3 Critérios de transcrição

As transcrições das informações musicais melódicas e harmônicas seguem alguns critérios básicos:

  • Apenas os trechos melódicos principais são transcritos (ou seja, são omitidas eventuais introduções, interlúdios e codas instrumentais).
  • Ritornelos e repetições da capo são desconsiderados, ou seja, interessa-nos a forma nominal das composições (seu material essencial), ao contrário da forma de realização (o arranjo definitivo).
  • Os mesmos critérios se aplicam à dimensão harmônica (que são transcritas em uma matriz de dados especiais, cuja descrição será apresentada em um capítulo futuro).
  • Em relação à transcrição de notas-funções (ver capítulo sobre os modelos teóricos adotados), que também se dá em uma matriz de dados específica, o critério é não considerar a composição por inteiro (como nos demais casos), mas apenas uma amostragem, variando de 20 a 50 notas contíguas.

Referências

deClercq, Trevor, e David Temperley. 2011. «A corpus analysis of rock harmony». Popular Music 30 (1).
Mauch, Matthias, Robert MacCallum, Mark Levy, e Armand Leroi. 2015. «The evolution of popular music: USA 1960-2010». Royal Society Open Science 2 (5).
Moss, Fabian, Markus Neuwirth, Daniel Harasim, e Martin Rohrmeier. 2019. «Statistical characteristics of tonal harmony: A corpus study of Beethoven’s string quartets». PLOS ONE 14 (6).
Moss, Fabian, Willian Fernandes Souza, e Martin Rohrmeier. 2020. «Harmony and form in Brazilian Choro: A corpus-driven approach to musical style analysis». Journal of New Music Research 49 (5).
Serrà, Joan, Álvaro Corral, Marián Boguñá, Martín Haro, e Josep Ll. Arcos. 2012. «Measuring the Evolution of Contemporary Western Popular Music». Scientific Reports 2 (521).
White, Christopher, e Ian Quinn. 2018. «Chord Context and Harmonic Function in Tonal Music». Music Theory Spectrum 40 (2).

Notas de rodapé

  1. Ver, por exemplo, Moss et al. (2019) considerando aspectos da harmonia na integral dos quartetos de corda de Beethoven.↩︎

  2. Para alguns exemplos, ver deClercq e Temperley (2011), Mauch et al. (2015), Serrà et al. (2012), White e Quinn (2018) e Moss, Souza, e Rohrmeier (2020), este último considerando o gênero choro. Importante acrescentar que todos esses artigos se concentram apenas em questões harmônicas.↩︎

  3. A bem da verdade, enquanto as peças dos corpora Jazz e Samba proveem de diferentes compositores, as do Choro, por decisão metodológica, são todos da autoria de Pixinguinha (e, eventualmente, de seu parceiro Benedito Lacerda). Tal decisão se justifica pelo fato de Pixinguinha ser, reconhecidamente, o maior compositor do gênero de todos os tempos. Assim, ele se torna uma espécie de representante máximo do estilo do choro, que quase, por assim dizer, se confunde com seu próprio estilo composicional, em nosso entender.↩︎

  4. Para maiores informações, ver sua descrição na sua respectiva página da Wikipedia.↩︎

  5. As partituras em arquivo pdf também estão disponíveis no site do Instituto.↩︎

  6. Algumas canções do corpus foram transcritas de gravações.↩︎